João Pessoa, 20 de Agosto de 2017

07 de Maio de 2017

Filmes inspirados na ciência se destacam nas telonas

Filmes inspirados na ciência se destacam nas telonas

 Lembra do filme Armagedon? O blockbuster de 1998 apostou no ator Bruce Willis como salvador do planeta ao explodir um meteoro em rota de colisão com a terra. O filme foi um sucesso de bilheteria, mas não de ciência. A solução, além de inviável tecnologicamente, está cheia de furos no plano científico, e os exemplos não param por aí.

No filme 2012 — estreado em 2009 —, o mundo é aterrorizado por uma série de tragédias naturais. Até aí tudo bem, mas o fato de as tragédias terem como razão os “neutritos em mutação”, e não somente o calendário Maia, é um absurdo sem o mínimo respaldo da ciência.

A estreia do filme Vida, que aconteceu no mês passado, abre espaço para a discussão sobre a posição que fatos têm em produções de ficção científica. Outras obras já fazem uso de consultoria científica especializada para diretores e roteiristas. A instituição norte-americana Science and Entertainment Exchange é a responsável por promover fatos para histórias que – tecnicamente – não precisam dessa premissa. Consultoria

Desafios às leis da física e outras tantas ciências foram quase uma regra para a maioria das produções científicas ao longo dos anos. Segundo o professor do departamento de audiovisual da Universidade de Brasília, David Pennington, a priori, a ciência era a última preocupação de um filme desse gênero: “A ficção científica começa no século 19, lá com H. G. Wells (escritor britânico). Ela funcionava mais como um veículo de discussão sobre as relações humanas. A ciência, dentro de uma obra, era o ponto de partida para outras reflexões. O público saía com uma reflexão, se perguntando ‘E se?’”, explica.

A Academia Nacional de Ciência (NAS) norte-americana está tentando mudar o panorama dessas produções que estão um pouco longe de possibilidades científicas. A academia colocou em prática, desde 2008, a Science and Entertainment Exchange — também autodenominados como os “exchangers”. O grande diferencial deles? É uma organização exclusiva de cientistas que trabalham como assessores de grandes produções que busquem algum respaldo científico.

Segundo Paulo Eduardo de Brito, professor de física da Universidade de Brasília, os exchangers podem fazer um papel fundamental nos filmes. Ele defende que a veracidade científica em filmes de ficção é uma base para credibilidade das produções. “Acho que, quando você respeita o aspecto da ciência, você tem um respaldo muito maior, principalmente com os jovens, para comprovar aquilo como uma verdade”, e completa: “São poucos (diretores) que se preocuparam com fatos científicos, a maioria está mais preocupada com o roteiro. Acho que muitos não têm respaldo, mas deveriam ter”, defende.

Marvel científica

Desde a criação do Science and Entertainment Exchange, foram cerca de 1.700 consultas (de acordo com o próprio instituto), entre obras que vão desde a série de TV The good wife (2009) — que versa sobre o cotidiano jurídico norte-americano —, até o filme Doutor estranho. Nesse contexto, eles fizeram consultas científicas para quase todo o universo de filmes dos estúdios Marvel. A grande novidade é que, desde o final do ano passado, os exchangers facilitaram, e muito, essa assessoria aos cineastas.

Os diretores ou roteiristas podem pedir dicas por meio de uma linha telefônica — o número é 55-844-6333-724 (844 need sci), você pode ligar, mas só receberá assessoria se tiver convênio com a Motion Picture Association of America. Simples assim: basta um telefonema e a ciência do filme será muito mais específica, como no caso do A chegada (2016). Indicado ao prêmio Oscar de melhor filme, a produção de Denis Villeneuve trocou referências matemáticas que não tinham muita relevância por outras mais válidas, com o apoio dos exchangers.

Segundo a vice-presidente da Science and Entertainment Exchange, Janet Zucker, o papel da instituição é claro: “Nós queremos que escritores e diretores se sintam confortáveis, e que saibam que explorar a ciência vai abrir, e muito, as possibilidades criativas para a história deles”, defende.

Além dos exchangers

Na série NCIS (2003), uma das formas de combater criminosos virtuais era à base do grito ao monitor. É claro que um ataque hacker não funciona assim, como contou à revista Superinteressante, Kor Adana (nome artístico de Korhan Gurocak): “Você tem que ir contra anos de indústria que criaram uma ideia errada sobre o processo. Ninguém nunca ligou, nunca se importou”.

O norte-americano faz parte de uma classe especial de profissionais, ele é consultor da série Mr. Robot (2015). Com um enrendo baseado no universo dos hackers, a produção já voa alto nos EUA, com prêmios como a Melhor Série no Globo de Ouro em 2016. A grande diferença do programa está na veracidade. Nada de hologramas, nada de “códigos mães”, ou outros jargões típicos do gênero. “Fazer uma abordagem realística, com o que de fato pode acontecer, é minha luta diária”, explica Adana.

Mr. Robot não é o único que segue a tendência da veracidade em produções de entretenimento na TV, e nem precisa ser ficção científica. A comédia The big bang theory também tem seu próprio consultor especial, o astrofísico David Saltzberg. Ele é o responsável por fazer verossímil as piadas da trupe de cientistas. “As decisões (sobre o que entra na série) são dos criadores, eles precisam que a ciência faça sentido, e eu estou aqui para ajudá-los com isso”, afirmou Saltzberg à revista Science.

Sobre essa consultoria especial, o diretor e roteirista da série 3%, Jotagá Crema, aposta em uma posição que vê qualidades e defeitos. “A ficção científica não é um gênero puro, tem ficção de terror, fantasia e etc. Usa-se ela para refletir. Ter embasamento científico enriquece a precisão dos filmes, mas também precisa de liberdade, se prender muito a fatos científicos talvez iniba o desenvolvimento da obra”, afirma.

Diferentemente de outras produções históricas de ficção científica, Vida tem todo o aporte científico que a história precisa. Resta saber se deixou o filme melhor, ou não.


Redação



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