João Pessoa, 24 de Novembro de 2017

09 de Julho de 2017

Tratamentos combatem a diabetes e reduzem infartos

Tratamentos combatem a diabetes e reduzem infartos

 Medicamentos com maior mecanismo de ação, atendimento personalizado e uma visão mais refinada sobre as complicações do diabetes. Reunidos durante cinco dias em San Diego, na Califórnia, mais de 16 mil médicos e pesquisadores de 112 países participaram da 77ª edição das Sessões Científicas da Associação Americana de Diabetes e apontaram um novo momento para o tratamento da doença que afeta 415 milhões de pessoas no planeta.

Entre as novidades apresentadas, dois estudos chamaram a atenção da comunidade médica e prometem impulsionar novas descobertas de intervenções terapêuticas. Ambos cumprem as normas do órgão regulador de saúde dos Estados Unidos, o Food and Drugs Administration (FDA), que exige que todo medicamento prescrito para o controle do diabetes seja seguro do ponto de vista cardiológico. Isso porque as doenças cardiovasculares são a principal causa de mortes por diabetes, correspondendo a 60% dos óbitos de pacientes.

Um dos estudos, o Devote, comparou duas insulinas basais — degludeca e glargina — durante dois anos, em 7.637 pacientes adultos com diabetes tipo 2 e alto risco de doenças cardiovasculares. Desses, 303 eram brasileiros, captados em 10 centros de pesquisa. Os resultados foram positivamente surpreendentes. “A degludeca reduziu em 40% a taxa de hipoglicemia grave e em 53% a hipoglicemia noturna”, explica José Francisco Kerr Saraiva, professor titular de cardiologia da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas e coordenador de Normatizações e Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

A hipoglicemia ocorre quando os níveis de açúcar (glicose) no sangue estão abaixo dos índices considerados normais, ou seja, menores que 70mg/dl. Essa condição é apontada como a principal complicação decorrente do uso da insulina, podendo levar à morte. O paciente com diabetes, por exemplo, pode dormir e ser acometido por convulsões, alterações na pressão arterial, arritmias graves, infarto do miocárdio e transtornos neurológicos.

Para José Francisco, assim como o diabetes, a hipoglicemia, dada a sua gravidade, é uma questão social, que envolve cuidados além do estilo de vida do paciente. “É também um problema dos médicos, que precisam se aprofundar no assunto; do governo, que precisa priorizar a saúde; das famílias, que não se envolvem com o momento correto da alimentação do diabético; dos pais, que comem açúcar na frente dos filhos diabéticos; dos cuidadores, enfim, de todos os envolvidos com os cuidados desse paciente”, lista o cardiologista.

Proteção renal

Outro estudo apresentado durante o congresso foi o programa Canvas, que demonstrou a eficácia da canagliflozina na prevenção de eventos cardiovasculares. A pesquisa contou com mais de 10 mil pacientes com diabetes tipo 2 de 30 países, e o medicamento reduziu em 14% o risco de doenças cardiovasculares e em 33% o risco de hospitalizações em decorrência de insuficiência cardíaca, além de impactar a progressão da doença renal e diminuir os níveis de açúcar no sangue.

A droga também mostrou-se eficaz na redução da pressão arterial e na perda de peso. Segundo Vlado Perkovic, diretor do The George Institute, na Austrália, e coautor do estudo, os resultados podem ser considerados um marco no tratamento do diabetes tipo 2. “A canagliflozina não somente reduziu o risco de doenças cardíacas, como também ofereceu proteção contra insuficiência renal, problema que afeta milhares de pessoas com diabetes.”

Palavra de especialista

Resultado relevante “A hipoglicemia não é apenas um incômodo que o paciente com diabetes sente. Ela é um fator de risco da doença e a principal barreira para que o indivíduo consiga alcançar o controle metabólico do seu organismo. É por isso que os resultados do Devote são relevantes. Além de ser um estudo com baixa taxa de abandono, menos de 2% dos pacientes deixaram o tratamento, comprovou-se que a insulina degludeca é eficiente na redução de casos de hipoglicemia e na consequente diminuição de complicações cardiovasculares nos pacientes.” Dificuldades no Brasil

Embora as pesquisas sobre o diabetes tenham evoluído a passos largos nos últimos anos — com medidores de glicose cada vez mais modernos, canetas aplicadoras de insulina e bombas de infusão quase indolores —, não há como negar que o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer no que se refere ao atendimento adequado ao paciente.

Segundo o endocrinologista Rodrigo Moreira, da diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, é possível encontrar no Brasil praticamente todos os remédios existentes em países desenvolvidos, mas eles não são completamente acessíveis. “Temos liraglutida, dulaglutida, empagliflozina, canagliflozina e dapagliflozina, ou seja, quase tudo o que os EUA têm, com duas exceções, e com a diferença de que lá o governo oferece essa gama de medicamentos gratuitamente. No Brasil, não”, comenta.

Moreira enfatiza que o quadro de diabetes no Brasil torna-se preocupante pelo grande desconhecimento da doença. “Existem entre 10 milhões e 14 milhões de brasileiros com diabetes tipo 2. E estima-se que a metade não sabe que tem diabetes, o problema já começa aí.” O médico explica que ter a glicose alta não significa necessariamente a percepção dos sintomas da doença. Muitas vezes, ela é assintomática, mesmo que a pessoa apresente índices de glicemia entre 150 e 250.

“Ao ser diagnosticada a doença, o que pode demorar entre três e cinco anos até que o paciente chegue ao consultório, a glicose alta já está atacando os olhos, os rins, os nervos, as artérias”, alerta. O endocrinologista ressalta que outro erro é atrelar o diabetes somente ao açúcar. “As pessoas se esquecem do arroz, do macarrão, da farinha etc.” A estimativa é de que, no Brasil, haja 16 milhões de diabéticos. Se a doença seguir crescendo no ritmo atual, serão 642 milhões de pacientes no mundo em 2040. (EC)

Redação



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